Laços da Alegria

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Carta aberta para você

Logo na minha primeira visita pelo Laços da Alegria, sofri um grande choque interno. Enquanto estava sentado, esperando pela minha vez de ser pintado, não parava de me perguntar o que fazia na frente de um hospital numa manhã de fim de semana.

Meu (mau) humor matinal sequer permitia qualquer interação com os demais voluntários. Bom, todos sabemos que humor e carisma nunca foram minha marca registrada.

Está tudo bem em ser você mesmo.

Mas calma aí… Está tudo bem mesmo? Como você está?

Provavelmente, essa frase eu repito para você umas 200 vezes por vez que nos encontramos. Pode parecer paranoia, mas não é. Ao menos, acho. Eu te percebo, sabia? Uma piada ruim aqui, um comentário besta ali, um abraço, uma roda, a piada que não sei fazer.

Eu sei que muita gente também te percebe, te nota, te admira. O negócio é que, assim como eu, muita gente não sabe demonstrar. Nota mental: preciso trabalhar isso!

Apesar do pouco contato fora do projeto, eu sei que as coisas não estão bem. Não é egoísmo priorizar a sua saúde mental. Cuide de você!

Eu sei que parece repetitivo, já que falamos disso outro dia pelo WhatsApp. Sim, em uma daquelas raras conversas que tivemos nos últimos meses. Eu não sou bom em manter diálogos frequentes. Isso não quer dizer que a figurinha que mandei foi aleatória.

Já cansei de perceber, às vezes, que você chega para visitar com a camiseta molhada e não é do suor que emana dos poros nos dias desérticos de Brasília, mas sim, dos olhos.

Você deveria não se pressionar tanto, mesmo o trabalho não indo bem, as coisas em casa meio fora do controle ou com a vida sentimental desmoronando. Certa vez, eu ouvi que devemos ter em mente que os momentos difíceis também passam.

Tem um tempo que eu quero te perguntar por onde anda o seu sorriso. Não esse alto, engraçado e fácil, que vem após uma anedota ou ironia malfeita. Mas, cadê o sorriso bobo?

Nossa alma é forjada pelos traumas e o Laços da Alegria é um bom refúgio, mas a gente precisa voltar para o nosso lar. Não me refiro à casa onde moramos, mas a alma que habitamos. Toda ajuda para nos reconectar a nós é bem-vinda, não acha?

Até tenho que compartilhar uma novidade. Aquela que eu escrevi e apaguei antes de você ler na conversa do ‘zap’. Eu voltei para a terapia. Olha, colocar para fora alguns traumas me ajudou muito, viu?

Obrigado por me dizer que eu não preciso ser forte o tempo todo. Sempre é possível recomeçar. Isso vale para você também, sabia?

Olha aí, uma oportunidade e já comecei a falar mais que tudo. Olha, você e tão necessário (a) na minha vida, e na vida de tantas pessoas, que é um vacilo não te ter por perto.

É, eu sei que nunca falo isso com você. Eu sei que não é só para mim. O problema de nós, humanos, é que nem todos sabemos demonstrar e peço desculpas por isso. No fundo, todos devíamos entender que saúde mental importa.

Estava refletindo sobre todos aqueles traumas que conversamos e preciso reforçar aquilo que te falei: depressão não é drama, não é chamar atenção e muito menos frescura.

Algumas pessoas não vão entender, não vão perceber, não vão estar presentes. Todavia, converse. Procure ajuda.  Você é importante demais para sentir uma dor dessas sozinha!

Com amor…

Texto: Marcus Fogaça (Dr. Chapatin)
Edição: Nayara Sousa (Dra. Piquenique)

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